Capítulo 1 Introdução
Hoje, eu bem que me poderia apresentar academicamente como tradutor e intérprete, formado pela Escola Americana do Instituto Mackenzie; licenciado e bacharel em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP); mestre e doutor em Psicologia, na área de Psicofísica Sensorial, pela Universidade de São Paulo (USP); professor associado da Universidade Federal de Pernambuco (CE/UFPE); e pós-doutor pelo National Museum of Natural History, da Smithsonian Institution, em Washington, D.C., onde desenvolvi um trabalho inédito na área da áudio-descrição científica de artrópodes.
Poderia apresentar-me como formador de áudio-descritores, detentor de certificações concedidas pelo Audio Description Institute (ADP/ACB, em 2010, 2011 e 2016) e possuidor de prêmios internacionais conferidos pelo American Council of the Blind/Audio Description Project: o Barry Levine Memorial Award for Career Achievement in Audio Description (2016) e o Dr. Margaret R. Pfanstiehl Memorial Achievement Award in Audio Description — Research and Development (2018). Poderia apresentar-me como ex-membro internacional do Tactile Research Group (TRG-EUA, 1998–2000); ex-membro do Audio Description Advisory Committee da ACVREP (EUA, 2019–2020); fundador do Centro de Estudos Inclusivos (CEI/UFPE); e idealizador e coordenador do Laboratory of Artificial Intelligence and Machine Aid (LaimaUFPE).
Poderia apresentar-me como sendo o primeiro brasileiro a obter certificação em áudio-descrição pelo Audio Description Institute (ADP, USA), tornando-me o primeiro formador de áudio-descritores no Brasil com certificação internacional, oferecida pelo renomado Dr. Snyder.
Poderia apresentar-me como o primeiro formador cego de áudio-descritores, ensinando a quem enxerga, o que ver para áudio-descrever.
Poderia apresentar-me como o presidente da banca de doutorado, na Universidade Aberta de Barcelona, do maior audiodescritor do mundo, Joel Snyder.
Poderia apresentar-me como palestrante, consultor, pesquisador e formador de áudio-descritores nas áreas da acessibilidade, do desenho universal, da empregabilidade, dos direitos das pessoas com deficiência, dos jogos acessíveis e da educação inclusiva. Poderia apresentar-me como criador do curso “Imagens que Falam”, voltado à Tradução Visual aplicada às artes, às mídias e aos eventos, abrangendo técnicas de segurança em situações de catástrofe e atividades de lazer em audiogames. Poderia apresentar-me como estudioso das barreiras atitudinais e das representações mentais de estímulos táteis. Poderia apresentar-me como inventor, desenvolvi uma caneta para desenho em relevo voltada ao uso das pessoas com deficiência visual. Poderia apresentar-me como roteirista de jogos acessíveis, entre os quais estão o College Collection, Last line sniper defense e Braille is fun, atualmente em fase de desenvolvimento.
Poderia apresentar-me como inclusivista, defensor do desenho universal e ativista pelo acesso pleno a bens e serviços, com igualdade de oportunidades, sem paternalismo ou condescendência.
Poderia mesmo apresentar-me como escritor amador, tendo escrito e publicado Confusão no País das Formas: para ler, escrever e alegrar-se; A Pata Pati em “O Terrível Monstro da Árvore”; Pequenas Histórias do Misterioso Senhor L; Os Gigantes da Montanha Kephalé: Gibraltar; Cisco, o entregador de pizza; Fantásticas Histórias de Bill Junior, o Vampiro do Sertão, estando algumas dessas obras disponíveis na Amazon.
Todavia, aqui, apresento-me tão somente como um professor que foi exortado por alguns colegas a produzir um memorial de sua trajetória laboral na Universidade Federal de Pernambuco. Assim, estas memórias visam registrar minhas pegadas na areia da praia da vida, antes que, de repente, venha a onda e as apague, como a reafirmar que a própria passagem de um professor pelo mundo não é mais que um breve e quase insignificante sopro de vento.
Ao tentar olhar para trás e reconhecer quais, entre as muitas pegadas impressas na areia, eram minhas e que percurso desenhavam, dei-me conta de que, para lhes compreender o sentido, teria de reexaminar marcas ainda mais antigas, já parcialmente desfeitas e cobertas pela areia trazida pelo vento do esquecimento. Percebi, ainda, que um memorial acadêmico formal não daria conta de registrar com fidedignidade uma história profissional que, em última instância, não pode ser reduzida a uma lista de achievements. Todavia, para o leitor que estiver curioso a respeito do que fiz ou produzi durante esses quase vinte e cinco anos de UFPE, apresento uma lista (anexo 1) daquilo que consegui resgatar em meu arquivo pessoal, e na internet. Não é uma lista completa, e nem tudo tem confirmação digital ou física. Como disse anteriormente, os documentos adicionados à minha memória são não mais do que adornos, pois neste memorial o que conta mesmo é minha história de vida docente.
Como professor, pesquisador e cidadão, sempre subverti, de alguma forma, as peias com que tentavam tolher minha liberdade. Então, por que não o fazer mais uma vez? Com a expectativa de tolerância daqueles que vão avaliar este memorial, farei.
Nessa esteira, começo por afirmar que minha formação e minhas pesquisas sempre atravessaram campos que, à primeira vista, muitos defenderiam que fossem mantidos separados: psicofísica, percepção tátil, tecnologia assistiva, entomologia, tradução visual, educação e direitos humanos. Eu não os mantive separados. Minha pesquisa sobre Representações mentais de estímulos táteis nasceu do interesse em compreender, sem reduzir a pessoa cega a estereótipos, como configuramos, reconhecemos, produzimos e apreciamos representações bidimensionais pelo tato. Desse trabalho nasceu também a caneta MH1.0 para desenho em relevo, criada para que uma pessoa com deficiência visual pudesse produzir e examinar o próprio desenho sem precisar virar o papel.
Na educação, articulei psicofísica, Braille, tecnologia assistiva, desenho universal, barreiras atitudinais e formação de professores. Na áudio-descrição, formei tradutores visuais e defendi uma prática tecnicamente responsável, livre de paternalismo e comprometida com o empoderamento do usuário. Minha formação pelo Audio Description Project, nos Estados Unidos, permitiu-me unir a descrição científica de artrópodes à áudio-descrição e aos direitos à informação, à acessibilidade e à educação.
O reconhecimento recebido de instituições internacionais de renome integra uma trajetória que nunca considerei apenas individual. Cada premiação, cada participação em congressos, conferências, bancas de pós-graduação e de concurso, cada pôster que apresentei, cada painel de que participei e cada formação que recebi ou ofereci apenas aumentaram minha responsabilidade de formar mais e melhor meus alunos.
Os registros públicos da UFPE mostram a continuidade das disciplinas que atravessaram minha trajetória: Fundamentos da Educação Inclusiva; O Ensino do Braille e Tecnologias Associadas; Áudio-descrição para o Ensino de Estudantes com Deficiência Visual; Barreiras Atitudinais contra a Pessoa com Deficiência; Fundamentos Psicológicos da Educação; Direito da Pessoa com Deficiência à Educação; e, nos últimos anos, Fundamentos para a Construção de Jogos Acessíveis para Pessoa com Deficiência, entre outras. Essas disciplinas ilustram os temas aos quais me dediquei a estudar, pesquisar e ensinar.
Vejo nessa sequência não uma lista de assuntos aleatórios, mas a expansão de uma mesma pergunta: como transformar conhecimento em acesso efetivo, autonomia e participação? No meu entender, a tecnologia, assim como o ensino e a pesquisa, somente adquire sentido quando contribui para ampliar a liberdade das pessoas e modificar as condições concretas de sua participação.
Entretanto, meu percurso não se organizou em linha reta, nem pode ser compreendido apenas a partir de meu ingresso na UFPE ou, antes disso, de minha passagem pela USP e pela UNESP. Para compreender o recorte das memórias que registro aqui, é necessário voltar ainda mais em minha história, ao início da estrada que percorri. Assim, peço licença para levar o leitor comigo em uma viagem ao passado, pois é de lá que começo a relacionar vivência com teoria, experiência de vida com pesquisa e realidade com literatura.
Afinal, se vou trazer minhas memórias acerca daquilo que produzi e com que, supostamente, contribuí para a academia, tenho de trazer também as memórias daquilo que ensinei, assumindo, aqui e agora, que poderia e deveria tê-lo ensinado melhor. Consigno, desde já, que considero que um memorial não deve ser apenas o registro do que se realizou, como se todo o percurso pudesse ser contemplado sem dúvidas, insuficiências ou revisões. Deve ser também um exercício de responsabilidade diante do que se fez, do que se deixou de fazer e daquilo que, compreendido mais tarde, poderia ter sido feito de outra maneira.
Antes de iniciar essa viagem, porém, permito-me apresentar alguns dos princípios que nortearam minha trajetória laboral e que orientarão este memorial. Eles poderão ajudar o leitor a compreender tanto as escolhas que fiz, quanto as posições que assumi, os caminhos que abri, as barreiras com que me defrontei e as responsabilidades que reconheço em meu trabalho.