Capítulo 10 A revista brasileira de tradução visual: divulgação acadêmica
Concebi a RBTV não apenas como um repositório de artigos, mas como uma infraestrutura de circulação do conhecimento. Ao idealizá-la, quis abrir um espaço editorial no qual diferentes áreas, linguagens e modos de percepção pudessem dialogar sem que a acessibilidade fosse tratada como complemento ou concessão. A publicação deveria acolher tanto a pesquisa acadêmica quanto relatos de experiência, entrevistas, ensaios, traduções, foto-descrições e outras formas de produção que nem sempre encontravam lugar nos periódicos tradicionais.
Minha atuação ultrapassou a autoria de textos. Como diretor, editor, editor de seção e editor de texto, participei da definição de temas, da interlocução com autores e da organização das edições, procurando assegurar coerência entre a política editorial e os princípios que orientaram a criação da revista. A possibilidade de incorporar produções em Libras, recursos gráficos e conteúdos relacionados às diferentes modalidades de tradução visual expressava esse compromisso. Não se tratava somente de publicar sobre pessoas com deficiência, mas de criar condições para que elas também produzissem, avaliassem e fizessem circular conhecimento.
Compreendo essa tarefa como uma forma de autoria institucional. Além do que escrevi individualmente ou em coautoria, contribuí para construir um espaço em que outros pesquisadores, profissionais e pessoas com deficiência pudessem registrar experiências, formular conceitos, apresentar críticas e transformar práticas. Nessa perspectiva, a acessibilidade editorial não é um favor dirigido a um público periférico: é condição de qualidade acadêmica, participação e justiça.
Na Plataforma Sucupira, em avaliação histórica da CAPES, a RBTV alcançou classificação B5 em Arquitetura, Urbanismo e Design; Comunicação e Informação; Direito; e Linguística e Literatura, além de C em Educação. Registro esses estratos como dados do período em que foram atribuídos, e não como classificação atual. O Qualis é organizado por ciclos avaliativos e não deve ser lido como um selo permanente.
O ataque, que retirou o site da revista da rede por longo tempo, prejudicou sua presença digital e sua continuidade pública, mas não apaga a classificação que ela obteve nem a contribuição intelectual acumulada. Na data desta escrita, o antigo endereço eletrônico já não apresentava regularmente o acervo da revista, porém, como a dedicação, esforço e amizade do Designer Wagner Martins, a RBTV foi resgatada e voltamos a ter a revista para receber artigos, prestar os serviços que tem prestado e dar a este professor, mais uma razão (hoje em dia são poucas) para acreditar que ainda podemos fazer algo para salvar a Inclusão no Brasil.; por isso, a preservação de seus números e de sua história torna-se também uma responsabilidade de memória.
Identidade visual, acesso e memória
Catálogo atual da RBTV: https://rbtv.proinclusao.com.br
A identidade visual da RBTV sintetizava o encontro entre línguas e modos de perceber: uma mão formando a letra T em Libras, ondas sonoras verdes e, abaixo, a sigla RBTV, com as letras em tinta e em Braille. A descrição da marca não é mero apêndice. Para mim, uma imagem publicada sem descrição mantém aberta uma porta apenas para alguns. Registrar verbalmente a logomarca é coerente com o próprio programa editorial da revista e conserva, em linguagem acessível, um elemento de sua memória gráfica.
A manutenção integral desse patrimônio — edições, artigos, pareceres, imagens, registros de autoria e metadados — permanece como tarefa de futuro. Meu desejo é que a RBTV continue sendo não apenas um endereço eletrônico, mas uma comunidade editorial viva, apta a acolher novas gerações de pesquisadores e pessoas com deficiência como produtoras de conhecimento. Entretanto, ao me aproximar do dia em que devo me despedir da UFPE, receio que mais esse sonho, só realizado com o apoio de generosos e dedicados alunos e colaboradores, inclusive de fora da UFPE e de Pernambuco, se acabará.